A Chegada (EUA, 2016) inova em quase tudo que é possível quando o assunto é ficção científica. Dito isso, o posto de “filme do ano” já está ocupado. É inteligente de uma forma muito particular, que vai desde a forma de se contar a história da linguista Louise Banks (Amy Adams) e seu contato com uns bicho do espaço até a forma como a temática da ficção científica é abordada pelo diretor franco-canadense Dennis Villeneuve. O diretor é responsável por filmes importantes como Os Suspeitos (EUA, 2013) e Sicário: Terra de Ninguém (EUA, 2015).

Resumindo um pouco a história, Louise Banks é a especialista em linguística que é convocada pelo Coronel Weber (Forest Whitaker) para fazer parte da equipe científica dos EUA que tenta entender e travar contato com as Conchas, naves presumivelmente alienígenas que pousaram randomicamente em 12 pontos do nosso planetinha. Dentre os membros da equipe, Louise conhece e se aproxima de Ian Donnely (Jeremy Jenner, o eterno GAVIÃO ARQUEIRO), um físico convencido de que se aproximará dos Aliens, através da linguagem universal da matemática. afirmo para vocês que a genialidade do filme já começa aí.

Ao acreditar na universalidade da linguagem matemática, Donnely inadvertidamente se admite um adepto da filosofia da ciência de Carl Sagan. Para quem não conhece, Sagan é um Homão da Porra e um grande divulgador científico nos EUA e no mundo. Um dos debates de sua predileção era vida alienígena. Apesar de um grande entusiasta da existência de vida inteligente em outros planetas, ele rechaçava veementemente aqueles que afirmavam ter tido contato com algum desses seres. Isso acontecia porque nosso querido Astrofísico achava muito esquisito que as mensagens do pessoal de outras esquinas da galáxia só falassem de amor e de uma espiritualização New Age. Ele tinha muita dificuldade de entender o motivo dele não poder travar uma discussão técnica com esse pessoal. E sempre dizia que usando notação matemática ele poderia entrar em contato com outras raças, uma vez que o desenvolvimento de viagem espacial necessariamente passaria pelo desenvolvimento da matemática e as notações teriam que ter alguma coisa a ver com nossos bons e velhos algarismos Indo-Arábicos. Mas será MESMO?

Sem querer botar água na cerveja do glorioso Carl, o pensamento dele parte de uma suposição difícil de se desvencilhar. Ele pressupõe um paralelismo muito grande entre a nossa espécie e os ET, que não precisa necessariamente existir. Vejamos o exemplo apresentado pelo filme: os Heptápodes ( sete pés) são criaturas com uma biologia absolutamente diferente da nossa, e não sabemos qual foi o ambiente em que se desenvolveram. OU SEJA, é virtualmente impossível naquele caso, mesmo que eles tenham algo que se assemelhe à matemática presumir como ela funcionaria e sob quais condições. Porque sim, mesmo as ideias mais abstratas existem a partir do ambiente em que nos desenvolvemos e das nossas próprias limitações. Resumindo, o nosso pensamento abstrato é só uma forma possível de pensamento abstrato, não seu único modelo.

Eu posso ter gastado o parágrafo ali de cima só pra comentar uma frase de um personagem que nem protagonista é, mas creio que a explicação aí em cima deixa claro o que esperar do filme: uma ficção científica não convencional. Aqui aliens não invadem ou ocupam pontos de prestígio e poder da raça humana. Aqui não é a coragem beligerante dos soldados que fará a diferença, é a audácia intelectual dos cientistas, nomeadamente da GALERA DE HUMANAS.

Louise Banks, linguista. é miçangueira, grevista, baderneira e bissexual chegada em astrologia. Ou seja, está fazendo as coisas do jeito certo. A questão aqui é demonstrar que em se tratando de A Chegada, nenhum aproach tradicional irá promover o efeito esperado com os simpáticos polvões espaciais. A Chegada, enquanto história, desafia a própria noção de Ficção Científica, confrontando um determinado senso comum sobre ciência que a galera por aí normalmente tem. Assim, além do conflito humano, além do conflito com o desconhecido, temos todo o desenvolvimento árduo de uma maneira de se comunicar com os ETs por de trás do vidro.

Isso mesmo, amiguinhos. O filme se desenrola enquanto  Louise corre contra o tempo para desenvolver não só uma forma de comunicação, mas também uma forma de ler aquilo que uma outra percepção do universo criou como escrita. A corrida contra o tempo se dá não por conta dos ETs, mas porque os 12 países que estão abrigando esses as Conchas acabam cortando comunicação entre si em função da desconfiança mútua e da disputa por poder. É quase como se fossemos os vilões de verdade.

O filme então  se põe a trabalhar a questão da linguagem. Louise aprende os garranchos de outro planeta, e logo ela é capaz de decifrar informações grandes, e de se comunicar de maneira eficiente. As coisas ficam ainda mais estranhas quando a linguagem dos alienígenas começa a influenciar a forma da protagonista de ver o mundo.

O filme é envolvente, e inova na forma de contar a boa e velha chegada dos nossos vizinhos de espaço sideral.

VÁ VER E ME CONTE COMO FOI!

 

A Chegada: Ficção Científica de Humanas?
Roteiro9
Direção9
Atuação9
Trilha Sonora8
Inovação10
Vai...
  • Gavião Arqueiro Cientista!
  • Ficção Científica Renovada
  • Atuação do Oscar para Amy
...e volta!
  • a filha dela.
9Pontuação geral
Nota dos leitores: (2 Votes)
9.2

Comentários Facebook