Um filme sobre um jovem empreendedor patrocinado por um bilionário! Um filme sobre o conflito entre Millenials e Baby Boomers! Um filme sobre um pai da classe trabalhadora americana tentando financiar o acesso de sua filha ao Ensino Superior! Um filme que prova que o pai da sua namoradinha de colégio é sempre seu maior inimigo! Assim é Homem Aranha: De Volta ao Lar!

Homem Aranha: De Volta ao Lar é um sucesso não só pela bilheteria que está fazendo, mas também pelo modo como ressona com a audiência e com o mundo à sua volta. Nos últimos 15 anos, tivemos três adaptações do Cabeça de teia para o cinema, sendo que a versão de Andrew Garfield foi um retumbante fracasso e só gente com mais de 30 anos gosta de verdade dos filmes estrelados por Tobey Maguire. Por mais que Homem Aranha 2 seja considerado um excelente filme de super herói, é impressionante como a geração de Críticos mais velha do que eu tem um tesão nesse filme muito maior do que este autor consegue entender (aqui e aqui você encontra dois exemplos do que eu estou dizendo).

Quando me referi ao fato de que o filme ressona com a audiência, queria me referir a duas coisas diferentes porém complementares. A primeira é a inserção do personagem no Universo Cinemático Marvel, envolvendo-o nessa forma consagrada – e lucrativa – de contar histórias. A relação de Peter com Tony Stark, e o fato do mundo inteiro do filme circundar fatos mostrados em outros filmes dá uma dimensão maior da trama, e localiza exatamente aonde se encontra o Homem Aranha no balaio de gato dos filmes da Marvel. O outro elemento de ressonância, talvez muito mais profundo, é aquele que se refere à forma como o filme se envolve com o nosso mundo, este aqui de fora da telona.

A forma como a Marvel encaixou o Homem Aranha nos filmes, na qualidade de potegée (segura meu francês) do Homem de Ferro, não é apenas uma forma esperta de fazer as coisas se encaixarem de maneira conveniente, é mais um reflexo do que faz sentido para a garotada hoje. Quando Peter Parker foi mordido pela primeira vez, a famigerada aranha era “radioativa”. No meio dos anos 90, ela passou a ser “geneticamente modificada”, refletindo as atualizações dos clichês da ficção científica de cada momento. Mas isso não é tudo que a gente nota que evoluiu.

O Parker dos anos 60 e 70 era um jovem gênio que produzia maravilhas na garagem de casa e as usava para salvar o mundo (vide os gloriosos lançadores de teia). Já o Peter Parker do gurizão alegre Tom Holland se tornou alvo do interesse de um bilionário excêntrico assim que saiu por aí fantasiado. É interessante ver como isso mimetiza de alguma forma a história da indústria da computação dos EUA, que começou com gente como Bill Gates e Steve Jobs produzindo esquisitices no porão, e hoje assim que alguém demonstra ter tido uma boa ideia na área, mega investidores estão prontos para abraçar a ideia da novíssima Start Up. A comparação faz ainda mais sentido baseado no background de Peter como um rapaz  muito talentoso com ciência e tecnologia.

Na real, este Peter é desenhado pra ser alguém cuja a geração de jovens espectadores podem se conectar da cabeça aos pés. Ao invés de sua boa e velha interação com a câmera fotográfica, temos o moleque filmando suas aventuras e sua atuação através do celular, digno de alguém que já nasceu alfabetizado na – e pela – internet.

Mas as similaridades com o mundo real não param aí. Assim como os millenials desse mundo nasceram influenciados por momentos históricos que mudaram a forma como o mundo funcionava (a partir da Crise de 2008, por exemplo), sua contrapartida do Universo Cinemático Marvel teve sua existência moldada pelo surgimento dos heróis que compõe os Vingadores, não só como inspiração, mas também como agentes geopolíticos, a exemplo de sua influência no Pacto de Sokovia.

Mas a humanidade não é apenas composta de uma geração só, e cada uma lida da forma como pode com novas situações. E aqui está uma questão bastante relevante: Se você é jovem quando grandes mudanças ocorrem, é provável que crescerá e se adaptará a elas com tranquilidade. Agora, se já um adulto formado, grandes mudanças te obrigam a jogar fora tudo que sabia e fazia e começar tudo de novo, o que nem sempre é possível. Eis que surge o vilão do filme, o Abutre de Michael Keaton.

Keaton projeta muito bem essa dificuldade de se adaptar já no início do filme, quando seu personagem, Adrian Toomes, perde um grande negócio devido às novas regras que a sociedade criou a partir do advento dos heróis. Excluído das oportunidades e com uma família para sustentar, Toomes decide embarcar numa setor econômico um pouco mais ilícito. A lição que está por de trás desse personagem é que mesmo momentos miraculosos, como o surgimento de heróis na terra, vão jogar certos membros da sociedade na escuridão e no limbo.

E disso que pode se entender o conflito maior entre o Homem Aranha e o Abutre. Um foi completamente absorvido pelo novo mundo que surgiu, enquanto outro teve que se permitir a criminalidade para oferecer o padrão de vida que ele gostaria de dar á sua família. Um tem todas as possibilidades da vida à sua frente, outro fez escolhas nas quais ele não pode mais voltar. São as marcas de um excelente conflito geracional, que estão brilhantemente condensadas na cena da conversa no carro entre Peter e Toomes.

O bom do filme é que você não precisa ser um esquisito que super analisa tudo como eu para aproveitá-lo. Os personagens são carismáticos, o roteiro é fechadinho e a história vai entreter com bastante eficiência a maioria das pessoas. Mas se você quiser olhar um pouco além da superfície, vai achar muitos pedaços de ferro velho alienígena para brincar. Vá ver e me conte como foi!

Homem Aranha: A Hora e a Vez dos Millenials no Cinema
Com charme e novidade, essa versão do Homem Aranha ainda tem ótimas histórias pra contar!
Direção7.3
Roteiro7
Atuação7.2
Trilha Sonora6.5
Inovação8.5
Homem Aranha, Home Aranha..
  • Curtindo a Vida Adoidado
  • Michael Keaton
  • Cameo do Capitão América
..Nunca bate, sempre apanha
  • Conversas constrangedoras com o pai da Crush
  • Comentários Machistas sobre a tia May
7.3Spider man, spider man, does wherever...
Nota dos leitores: (1 Voto)
9.0

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