Tanto a crítica de cinema daqui da Pátria Amada Salve Salve quanto de outros pedaços de terra delimitados por linhas imaginárias  chegaram ao consenso de que La La Land( EUA, 2016) é um filme cercado por uma aura de Sonho.  Tudo bem, eu concordo. Mas se La La Land é um sonho, eu pergunto: quem diabos está sonhando? Uma resposta tentadora ao enigma do sonhador seria identificá-lo como o Diretor e roteirista do filme, Damien Chazelle, responsável também pelo sucesso recente Whiplash(EUA, 2014). Esse pensamento não está completamente errado, mas também não chega perto de estar completo. A primeira cena, um poderoso plano-sequência grandioso e bem executado, denuncia que aquele sonho tem um quê de coletivo, de difuso por entre todos aqueles que sonham em fazer grandes conquistas em Los Angeles ( a L.A. Land, PRA QUEM AINDA NÃO PEGOU A REFERÊNCIA).Mas esse sentimento e objetivo comum, ainda é específico o suficiente para caber na figura de um sonhador.

É um pensamento simples: se há um sonho, necessariamente há um sonhador. Como pistas pra identidade dessa figura adormecida, eu tenho as imagens, personagens, cores e música que permeiam o sonho, que se agitam entre si para criar um reflexo agitado da figura oculta que está puxando um ronco. Assim, o que me resta é caminhar por esses elementos até chegarmos na identidade do sonhador oculto.

Comecemos então com o que parece ser o centro do sonho. A interação entre Sebastian( Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone) enquanto ambos perseguem seus sonhos é o eixo da estrutura do filme e de onde emergem seus conflitos e questionamentos. Elogio seja feito, a química do casal é alegre e convincente, sendo que a presença dos dois na cena fortalece a atuação um do outro e a cena no geral. Sem essa dinâmica, boa parte do impacto emocional do filme não existiria. A mina mais zoiuda de Hollywood e o cara que transformou o sorriso de idiota numa arte funcionam surpreendentemente bem juntos.Vale celebrar a dedicação de Gosling em aprender a tocar piano em 3 meses para o papel de Sebastian, fato bastante chamativo.

O problema desses protagonistas talvez seja algo que chamarei de “esquematização”. Mia é mais um clichê do que uma personagem quando olhamos para sua constituição: a garota sonhadora que está batendo cabeça para realizar seu sonho de ser atriz. Essa vontade possui uma raiz profundamente pessoal e familiar, materializada na admiração de Mia por sua tia. Emma Stone faz um bom papel ao construir sua própria leitura da garota do interior, colocando na mistura um pouco de petulância, bom humor e sensibilidade. Ainda assim, a própria história da personagem parece trair seu conceito inicial. Se La La Land é um filme que se vende como uma história de sonhadores pra sonhadores, a história de Mia simplesmente não faz sentido. Afinal, na prática ela saiu de uma peça com público total de 6 pessoas para estrelar um filme feito sob medida pra ela .Em que mundo qualquer produtor com meio cérebro vai topar um  filme cujo roteiro vai ser desenvolvido especialmente para uma desconhecida EM SEU PRIMEIRO PAPEL? Só num mundo de sonhos mesmo.

Essas inconsistências na verdade apontam para o lamentável fato de que  história e as aspirações de Mia na verdade são só o catalisador do arco narrativo de Sebastian. Primeiro sou obrigado a dizer: que personagem pé no saco, minha gente. O que esperar de um moleque branco cuja missão – autoproclamada – é ser o salvador do Jazz?  E, veja bem, ele não quer salvar qualquer Jazz, e sim  aquele Jazz que ele considera puro e verdadeiro. Essa atitude por si só é uma furada sem tamanho. Isso é reconhecido pelo próprio filme, quando os ideais românticos dele são confrontados por outro colega músico, Harry(John Legend), que aponta para o fato de que a ideia de salvação do ” verdadeiro Jazz” vai contra o fundamento da evolução, do experimentalismo e do futurismo do próprio gênero musical. Isso estabelece o compromisso fundamental do menino Sebastian com o passado, mas não qualquer passado, e sim com os elementos certos do passado, os quais ele – e somente ele – é capaz de identificar e proteger. Esse talvez seja o ponto central do filme. Assim  como a primeira estrofe de ” Another Day of Sun” resume o conflito do filme, a relação de Sebastian com o Jazz exprime a relação do Diretor Damian Chazelle com o cinema Hollywoodiano.

Aqui entra um pouco de extrapolação necessária. La La Land é um filme completamente recheado de referências a filmes clássicos da boa e velha Hollywood. Dançando na Chuva,  Se Meu Apartamento Falasse e Amor, Sublime Amor são alguns exemplos e também nos trazem umas poucas pistas. dos filmes referenciados, eu consegui contar  apenas 4 que aconteceram depois de 1970: Grease (1978), Boogie Nights (1997), Moulin Rouge (2001) e Meia Noite em Paris (2011). Dos mais de 20 filmes restantes nenhum passa do final da década de 60. Temos aqui uma clara preferência por um determinado período do Cinema americano, um período que foi pautado pelos grandes musicais, nos deixa um passo mais próximos do misterioso ser adormecido.

As referências são mais um elemento que constroem a ideia de uma Hollywood atual sobreposta ao passado glorioso da Terra do Cinema. Um exemplo é Mia de celular perambulando pelos cenários de madeira que a gente via em filmes antigos onde todo mundo dança e sapateia. A partir disso, o diretor Chazelle faz questão de demarcar nos milímetros a que passado glorioso ele está se referindo. Para não deixar nenhuma dúvida, o diretor e roteirista insere um personagem que aparece em apenas uma cena mas delimita com precisão qual é o grande cinema para Damien Chazelle. O personagem a que eu me refiro é o escritor Carlo, um babaca que aparece xavecando a protagonista com um papo furado a respeito de ficar famoso e sobre a JORNADA DO HERÓI.

ORA. Não sera um tema muito específico pra se colocar na boca de um personagem coadjuvante que NÃO TEM NEM UMA LINHA de descrição no Internet Movie Data Base?Fica parecendo que, sei lá, não sei, talvez o diretor tivesse colocado o personagem só pra falar isso.  Aqui cabe um pouco de História: a introdução da Jornada do Herói é um marco em Hollywood, que altera a forma de se pensar e se fazer cinema para sempre. Essa onda transformadora irá se propagar a partir de 1977, data de estréia do filme que primeiro fez uso do formato, um negocinho que a gente conhece como Star Wars IV: Uma Nova Esperança. Essa pequena referência somada ao fato de que as referências a filmes da década de 70 e 80 ( quando a Jornada do Herói explodiu no cinema) são quase nulas me faz concluir que o Diretor despreza esse tipo narrativa. Otário.

Tendo caminhado por todos esse pontos de interesse, acho que posso dizer que temos a silhueta desse sujeito oculto que está sonhando La La Land. Trata-se da figura idealizada de quem faz cinema. Não é qualquer cinema, evidentemente. Estou falando de quem fez e faz cinema em Hollywood, presumivelmente um homem branco, que hoje deve contar com seus 60 ou 65 anos, tendo portanto tomado contato e se apaixonado por cinema através dos filmes referenciados por Chazelle. O diretor,como Sebastian, se auto proclama guardião do verdadeiro cinema e apresenta aos seu heróis como ele pretende mantê-lo exatamente como ele o deixaram PARA SEMPRE. Coincidentemente ou não, o homem branco na faixa etária de 60 a 65  anos é o eleitor padrão da votação do Oscar.

Ou seja, o que muitos estão chamando de filme do ano e o grande favorito ao Oscar 2017 é na verdade um grande manifesto conservador do que o cinema deveria ser e sobre quem ele deveria ser, lamentavelmente a parcela mais privilegiada da sociedade. Há ainda outros problemas em La La Land, que vão desde o fato de que num filme sobre Jazz os negros são meros coadjuvantes, até um apelo barato à meritocracia, no discurso de que o sonhador de verdade sempre alcança o que quer. Como já vi esses temas adequadamente debatidos em outras críticas, vou tentar focar só no que disse aí em cima, que é um tipo de comentário que eu ainda não havia visto.

Isso quer dizer que eu acho La La Land um filme ruim? Não. Na verdade, esse texto foi escrito colocando a trilha sonora de La La Land no repeat. Mas independente do colorido charmoso do filme e de suas músicas cativantes, ninguém vai me convencer que o impacto social da obra é positivo. Maravilhas técnicas podem esconder implicações realmente desagradáveis e creio que seja esse o caso.Enfim, La La Land é um filme que abarca desde a mais profunda das reflexões até o mero “se deixar levar” por cenas arrebatadoras e bem filmadas. Como você assiste é com você. Vá ver e me conte como foi!

La La Land e a Identidade de Quem Sonha
Direção9
Roteiro8
Atuação8.5
Inovação4.9
Trilha Sonora10
O Sonho
  • Emma & Ryan
  • Sapateado
  • Aquela Cena do FInal
O Pesadelo
  • Conservador
  • Narcisista
  • Aquela Cena do Final
8.1Um Sonho Cantado!
Nota dos leitores: (2 Votes)
7.1

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