Do alto dos meus 28 anos, posso afirmar que acompanhei a evolução dos filmes da Disney desde A Bela & a Fera (1991) até o recente e glorioso Moana (2016). E das muitas coisas que podem ser ditas a respeito da trajetória do estúdio é que eles sabem identificar o que funciona e deve permanecer e aquilo que precisa mudar. A Bela & a Fera, inclusive, é considerado o filme de abertura do famoso Renascimento Disney ( Parte 1 e Parte 2 aqui). Depois de uma época de vacas magras e de filmes de pouco impacto comercial e cultural, o filme que nos ensina que objetos falantes são incríveis e o que sentimentos são é o primeiro de uma série de sucessos que incluem Alladin, Rei Leão, Mulan e Hércules. Obras como essas transbordam os limites de puro entretenimento e alcançam um significado social muito maior do que poderia se esperar. Dentre outras coisas, filmes como esses são responsáveis por garantir que garotinhas passem uma parte considerável da infância (e também da adolescência) querendo ser princesas.

Ora, é como ser uma princesa? Além de comprar a fantasia,  meninas tentam de alguma forma emular o comportamento das protagonistas dos filmes que elas adoram, e aí que entra o ponto central da discussão: qual é o comportamento que está sendo passado pra gerações e gerações de meninas sobre o que é ser uma princesa? Isso não é algo restrito à Disney ou a desenhos animados de maneira geral, é algo que vai das coisas que as crianças vêem em casa até o que elas aprendem com brinquedos falantes. Assim, quando partimos da história de uma linda moça que foge por causa da inveja outra mulher, faz serviço doméstico de graça e é acordada por um beijo que ela não pediu por um cara que ela não conhece ( Branca de Neve, pra quem não se tocou) e chegamos na história de uma personagem com opiniões e desejos próprios que salva o mundo E resgata o legado perdido de seus ancestrais, acho que é tranquilo afirmar que valores e mensagens qualitativamente diferentes estão sendo passadas para o público. Isso quer dizer que a noção de Princesa Disney evoluiu no tempo.É legal notar que a mesma dupla que dirigiu Moana, Ron Clements e Don Hall, são responsáveis por vários sucesso, desde o clássico Aladdin até o recente Operação Big Hero, uma boa mistura do clássico e do moderno.

Assim, quando nos deparamos com Moana, somos brindados com familiaridades e estranhamentos quando se trata da tradição de filmes Disney. O primeiro é bastante visual: estamos numa ilha tropical habitada por pessoas de etnia presumivelmente polinésia. Assim como Tiana, Mulan e Pocahontas, Moana entra pro distinto grupo de princesas sem ascendência europeia. Para além disso temos uma ausência interessante: nenhum par romântico à visto. Embora a Princesa Mérida já tenha lidado com isso em Valente, a mocinha irlandesa ainda tem que lidar com a existência de pretendentes enquanto que para Moana isso não é nem uma questão nem um problema. Simplesmente é algo que durante essa jornada de auto conhecimento e nesse processo de auto aceitação não tem espaço nem importância.

Aliás esse talvez seja um dos maiores charmes do filme, a hibridização das duas estruturas mais conhecidas na boa e velha contação de histórias ao redor da fogueira. A viagem de auto conhecimento, cujo o nome científico é MONOMITO ou Jornada do Herói  é o clássico que leva nosso protagonista de sua vidinha rotineira até uma batalha de vida e morte para salvar o mundo/galáxia/escola, e de volta para a boa e velha calmaria.No sentido oposto, temos a jornada de auto aceitação, a base dos contos de fadas, conhecida como a Promessa da Virgem. Essa estrutura nos conta a história de alguém que se vê enfrentando os limites do mundo que ela conhece  para poder ser quem é de verdade, seja alguém que dança balé, seja denunciar o racismo no extremo sul dos eua, SEJA SE ENVOLVER NO PIOR RELACIONAMENTO DE TODOS OS TEMPOS. As duas estruturas, portanto, dão conta dos dois grandes desafios da individualidade humana,  descobrir quem nós somos e aceitar quem nós somos. São coisas, parecidas, mas certamente não são a mesma coisa.

O legal do filme é que Moana passa pelas duas. A busca pelo seu lugar na sociedade passa pela aventura épica para salvar seu povo. É uma transformação por dentro e por fora, de si mesma, e da sociedade em que ela vive. Os demais personagens até ficam um pouco apagados perto da força de Moana, à exceção do carismático Mauí (Dwayne Johnson CANTANDO),  que serve tanto como escada das piadas do filme quanto como mentor e guia da protagonista ao perseguir o Coração de Tefiti.

É uma aventura Disney transforadora e fofa. Tem algo de saudade, mas também apresenta os ambiciosos planos de novas histórias que o estúdio ainda tem para contar. VÁ VER E ME CONTE COMO FOI!

 

Moana: a velha e sempre nova aventura da Disney
Direção8
Roteiro8
Atuação8.3
Inovação8.3
Trilha sonora8
O Mar é uma aventura....
  • Tamatoa
  • animação lindíssima
  • grandes músicas
... muito perigosa!
  • Cenas sem o Tamatoa
8.1O Encontro do Velho e do Novo!
Nota dos leitores: (2 Votes)
9.6

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