Fico olhando o descaso feito com os novos escritores nacionais e não consigo ficar quieta. Sendo assim, farei uma continuação para este texto aqui: Treta literária. Preciso escrever sobre isso porque alguém tem que falar alguma coisa e, neste caso, sou euzinha.

Eu acho que qualquer pessoa que goste minimamente de literatura e que, tenha estudado, minimamente, a disciplina na escola, tenha ideias e opiniões sobre os textos e livros que são colocados na nossa cara para leitura obrigatória ou por mera diversão. Até porque, opinião a gente tem sobre tudo e qualquer coisa, imprimimos nossa subjetivamente o tempo inteiro sobre as coisas com as quais convivemos. É normal, natural, mas não é esse o problema.

Tenho uma bolsa de pesquisa desde 2015 e eu aprendi muito tendo que estudar jornal do século XIX. E não aprendi somente que tinha conteúdo licencioso na capa mais popular do Rio de  Janeiro. O que eu mais me surpreendi e o que mais me moveu dentro dessa pesquisa foi entender que literatura é política. Que o que ficou nos nossos livros didáticos sobre literatura não é nem a ponta de iceberg, nem um bobo cubo de gelo. É engraçado (mentira, não é engraçado não), que na escola a gente toma tudo como verdade e parece que na história da literatura só houveram aqueles nomes ali impressos e rotulados nas escolas literárias que a gente é obrigado a decorar. Ninguém se lembra de nos avisar que não é bem por aí…

Quando eu falo sobre literatura ser política eu quero atentar para o fato de que se, por exemplo, Machado de Assis tivesse dado um deslize e perdido parte da sua influência, ele não seria O Machado de Assis que é hoje. Da mesma forma, que escritores menos influentes, mas, muito importantes, como Pedro Rabelo (você sabe quem é Pedro Rabelo?) que foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras (ué, título importante, ele deveria ser famoso, né?), foram simplesmente esquecidos de serem mencionados. Ninguém estuda Rabelo no colégio, né mores? Porque a panelinha política não quis botar o nome dele. Sabe qual a consequência disso? O apagamento, o esquecimento de um autor e todo seu legado. Percebem que a gente paga pau para os escritores canônicos que alguém decidiu que eram quem deveríamos idolatrar?

Eu vejo esse tipo de coisa como uma panelinha escrota, igual na escola, que seleciona os amiguinhos que vão na festinha topzera (não acredito que escrevi “topzera”) .

Meu problema com opiniões é esse: se a gente não gosta de algo a gente faz aquilo se apagar para nós e para os próximos da gente, porque não vamos apresentar algo ruim para outra pessoa. Agora pensa nisso em grande escola. As coisas são esquecidas, viram nada. Todo o trabalho de uma vida é igualado à zero. Acabou, não existe mais. É isso que acontece na literatura, é isso que estão empurrando goela a baixo dos novos autores. Por puro egocentrismo babaca a gente diz que algo não é bom e quer que aquilo suma. Mas a gente esquece que, ainda bem, temos opiniões diferentes, e cada um pode sim gostar de um coisa. A coisa mais tenebrosa desse mundo pode ser algo muito foda para outra pessoa. E a gente tem mais é que calar a boca mesmo.

Acredito que tenha espaço para tudo e todos, mas vivemos numa bolha cultural paupérrima. Aprendi com um professor que temos que ler: não interessa se é bom ou ruim, nossa opinião não importa, só temos que ler. É isso. Deixa as pessoas escrevem em paz. Não interessa se é uma bosta com milhares de likes e compartilhamentos ou algo foda com 3 leitores. Não cabe a ninguém ficar selecionando com ar impositivo, querendo empurrar nas pessoas coisas que elas não estão interessadas.

Não é porque escreveram obras incríveis que tudo o que vier agora, no contemporâneo, vai ser ridículo. Aliás, minha súplica é: parem de nos comparar aos grandes escritores. Nós já somos grandes escritores, revolucionários neste mundo de tecnologia maluca e pouco tempo pra tudo (isso é muito black mirror).

Imagem: Academia.org

Digo, repito, colo na testa e nos postes da cidade: precisamos exorcizar o cânone se quisermos que os novos escritores sobrevivam ou, no mínimo, tenham ar para respirar.

Esse pensamento engessado sobre literatura vem matando toda uma nova geração. Eu sou parte dessa geração. Eu não quero ser comparada à esses autores. Eu quero ser eu, ter minha identidade. Não quero criar uma obra à moda Alencar, Assis, Lispector, Queiroz… Acredito que nenhum autor novo queira algo do tipo. Não dá pra imitar estilo, escrita, de ninguém: essa é a maior maravilha da literatura.

Vejo este tipo de coisa sendo extremamente prejudicial para a nova geração e sinto que se não pararmos de ser tão anacrônicos sobre as novas produções literárias, não teremos uma geração, não seremos uma geração literária. A tríade autor-texto-leitor depende de muita coisa para sua estabilidade, e os três precisam um do outro para existir, não consumam um item por base de opiniões preconceituosas e sem muitos fundamentos.

Não somos obrigados a gostar das novas produções, aliás, nem somos habituados a sequer respeitá-la… e não respeitar também é matar, sufocar e negligenciar toda essa literatura. É claro que a gente vai escolher aquilo com o que mais nos identificamos, mas isso não significa que o resto, ou mesmo o contrário do nosso gosto não seja digno de sequer ser chamado de literatura. Não funciona assim.

Eu tento falar sobre esse tipo de pensamento, na tentativa de instigar uma reflexão, para que não apaguemos outros nomes da história da literatura. Para que possamos abraçar todos os gêneros, tipos, estilos e escritas diferentes… Sem preconceitozinho com quem é escritor e quem é produtor de conteúdo. Também não vale nivelar literatura e falar que youtuber não pode escrever. São objetivos diferentes, pessoas e públicos diferentes… e no pior dos casos, o máximo que pode acontecer são pessoas aprendendo a gostar de ler. Não dá pra defender o que se gosta, mas apontar pros outros. Tá faltando um pouco de respeito, de humildade. Tá faltando estender a mão pro outro no lugar de afundá-lo ainda mais.

Imagem: Arte de Blog

E sabe de uma coisa? Poesia, romance… literatura, pode ser o que quiser. Não é definição alguma. E se alguém disser que O Rapto de Proserpina (imagem acima), do Bernini, não é poesia, pode parar de ler meu texto. Este mesmo que, agora, acabou.

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